Gutenberg: a Internet do século XV (ou a Internet Renascentista) e a Revolução Tecnológica do Século XXI.

Erasmo de Roterdã (1467-1536). Pensamento humanista encontra seu destaque em sua obra: Elogio da loucura. Erasmo criticou a imoralidade do clero, propondo que a Igreja reorganizasse sua ação com base nos Evangelhos. Foi um dos primeiros intelectuais a ter seu pensamento largamente difundido por meios impressos. Isso se tornou possível porque, no século XV, Johannes Gutenberg (1397-1468) inventou os tipos móveis de impressão, dando um impulso definitivo à publicação em massa de livros e outros impressos.

A exemplo do que a Internet faz hoje, Gutenberg contribuiu imensamente para a difusão de ideias e ideais que, sem essa tecnologia, nunca obteriam a dimensão e a velocidade necessárias para se popularizarem e fazerem a diferença como de fato fizeram.

Embora tenha morrido na miséria, a tecnologia foi fundamental para William Shakespeare (1564-1616) e seus ideais humanistas se propagaram entre os ingleses, de modo que tornou-se o mais popular dramaturgo da época e de hoje.

Quando hoje falamos em READING DEVICES (dispositivos para leitura) como KINDLE, por exemplo (vide post sobre), a tendência natural é de, a princípio, as pessoas balançarem suas cabeças dizendo que ‘preferem’ tocar o livro, manipulá-lo etc. Mas, se esquecem que o que importa de fato é o conteúdo do livro. Pouco importa a arte gráfica ou a qualidade das páginas no final das contas. É só pensarmos que a maioria dos universitários possui uma grande quantidade de fotocópias que se perdem com o tempo. Por meios eletrônicos amigáveis e que não cansem tanto a vista como as telas de computadores convencionais, é possível popularizarmos e democratizarmos a leitura. O próprio Shakespeare pode ser lido na íntegra, toda a sua obra gratuitamente. Mas, ainda leva um tempinho para as pessoas se acostumarem com a ideia de terem mais de 3500 livros em algo que é da espessura de um lápis e do tamanho de metade de uma folha A4 (insisto: vide post sobre Kindle, nesse blog).

Dentro da linha Renascentista temos Miguel de Cervantes (1547-1616) que fez, em seu livro Dom Quixote, uma crítica contundente à cavalaria medieval. Em Portugal, a expressão máxima do Renascimento foi Luís de Camões (1524-1580). O polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) e o italiano Galileu Galilei (1564-1642) desenvolveram a teoria da heliocentria.

Porém, um dos símbolos máximos do Renascentismo foi Leonardo da Vinci (1452-1519) – empenhado em conhecer leis que regem a natureza e em transformar o conhecimento em técnica. Leonardo NÃO FOI UM ESPECIALISTA. Simboliza, exatamente por isso o Renascimento, pois este é um tempo que valoriza associação entre os diversos conhecimentos científicos e práticos. As atividades intelectuais relacionam-se, dialogam entre si; os pesquisadores interessam-se pelas artes, pela reflexão filosófica e pelos conhecimentos de Física, Matemática, Mecânica, Hidráulica, Astronomia, Anatomia. Tudo precisa ser levado em consideração, porque tudo contribui para melhor compreender o mundo e o próprio ser humano. Entre os interesses de da Vinci destacam-se: pintura, escultura, música, cenografia, matemática, engenharia, anatomia humana e arquitetura.

Na época de Revolução Tecnológica, pela qual passamos, a exemplo do que foi a Revolução do Conhecimento na época Renascentista,  os especialistas ficam cada vez mais sem espaço de atuação. Alguns empregos ficam obsoletos, mas muitos outros surgem. Semelhantemente, acredito, ao que aconteceu aos escribas da época de Gutemberg, muitos tiveram que se adaptar de forma a se adequar às novas profissões e necessidades. Teoricamente a cada 10 anos surgem empregos que nunca antes eram imaginados. Daí a necessidade de atuação nos mais diversos campos.

O meu ex-professor de Tupi, Eduardo Navarro, por exemplo, mostrou-me bastante a necessidade de o profissional diversificar sua formação, pois, segundo ele, “os grandes mestres são aqueles que transitam pelas várias áreas do conhecimento”. Muitas pessoas estranham quando falo que cursei Tupi na USP, pois eu argumento, como exemplo, a etimologia das palavras que fazem parte do nosso dia-a-dia e são essenciais para entendermos nossa própria língua como Pipoca, Tatuí, Ubatuba, Ibirapuera, Xará, Paranápiacaba, Anhanguera etc… que despertam nossa curiosidade, mas que ficarão para uma discussão em um outro post.

Ao participar de uma palestra na OAB de Pinheiros em 14.12.2010 sobre cetificação e assinatura digitais, observou-se que cada vez mais há a necessidade de as pessoas, no caso, advogados, mas não só estes, terem um campo de atuação e conhecimento aumentados, principalemente na área de informática, pois a tendência dos tribunais é a de só aceitarem petições por meio eletrônico, além de outras atividades como compras via internet, entrega de documentos, declarações, realização de exames, entrega de trabalho realizado etc. Segundo o dr. Fábio Nori, advogado, engenheiro eletrônico e mestre em engenharia eletrônica pela POLI-USP, cerca de 80% do trabalho do judiciário é trabalho puramente mecânico/burocrático, de trâmite do processo, arquivamento, protocolação etc. Portanto, a digitalização dos meios faz com que haja uma maior celeridade do judiciário, economizando não só em papel, mas em transporte, logística etc, trazendo uma economia de 70% do tempo atualmente utilizado. Como em qualquer outro meio, as fraudes podem acontecer, e é justamente por isso que há metodos como criptografia, chaves públicas e privadas etc,  para tentar evitar tal fato. Além de tudo isso a digitalização economiza florestas e contribui para o processo de publicização, permitindo que teoricamente qualquer pessoa tenha acesso aos documentos e peças processuais de seu interesse sem precisar necessariamente da intermediação de um advogado para tanto. Nisso também, como em qualquer profissão, os advogados terão que mudar seu modus operandi para atender às novas demandas de mercado. 

No campo jurídico contribui-se também com princípio da publicidade dos atos públicos de forma que haja uma maior possibilidade de fiscalização propriamente dita. No âmbito privado a Internet, à exemplo do que representou a invenção de Gutenberg, contribuiu enormemente para a disseminação de ideias, para o comércio, para a mobilização de pessoas (que o diga a lei da Ficha Limpa no Brasil, vide posts), para a divulgação de ideias que supostamente não deveriam ser divulgadas (que o diga o Wikileaks, post em breve) etc. Essa mudança de paradigma inexoravelmente faz com que as pessoas procurem novas formas de se relacionarem, que extrapolam os níveis dos poderes governamentais nacionais.

 

About ricardonagy

Bacharel Direito PUC-SP. Pós-graduando em Direito Civil pela EPM-TJSP. Bacharel e Licenciado Letras inglês/português USP. Pós-graduado em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação PUC-SP.
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6 Responses to Gutenberg: a Internet do século XV (ou a Internet Renascentista) e a Revolução Tecnológica do Século XXI.

  1. Su says:

    Gostei bastante do post, principalmente sobre o lance do Leonardo não ter sido um especialista, mas fico pensando que era outro tempo, outra maneira de se relacionar com as coisas, sem essa “modernidade” louca que fragmenta tudo e todos….

  2. Wilson Shibuya says:

    Muito interessante o texto. Sucinto e interdisciplinar. Penso que seria completo se tivesse sido citado que vivemos ” O segundo Renascimento”, com o surgiment0 da internet. E se é que podemos chamá-la de invento a Internet, creio ser o terceiro maior invento da humanidade: o primeiro sendo a roda e o segundo a bússola. Parabéns!

    • Wilson Shibuya. says:

      Muito interessante o texto. Sucinto e interdisciplinar. Penso que seria completo se tivesse sido citado que vivemos ” O segundo Renascimento”, com o surgiment0 da internet. E se é que podemos chamá-la de invento a Internet, creio ser o terceiro maior invento da humanidade: o primeiro sendo a roda e o segundo a bússola. Parabéns!

  3. matheus mota says:

    nagy, seu texto ficou muito bom, mostra as consequencias da invencoes bem, relacionando todas com as invencões atuais.

  4. ak47 boy says:

    Muito bom o texto. Só faltou a máxima: “SOCIAL MEDIA REVOLUTION!!!”

  5. Pingback: Kindle Touch 3G chega ao Brasil. Dispositivo de leitura. Todos romances de Machado por US$ 9.99. | Ricardo Nagy's Blog

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