11 de setembro, Guernica, Hiroshima e Nagasaki. Guerra Fria. Nicolau Sevcenko.

Sem dúvida alguma o 11 de setembro foi o grande marco histórico do século XXI. Jornalistas e historiadores já dizem que o século XXI começou com o 11 de setembro. Inúmeros são os programas especiais sobre o evento na véspera de completar dez anos dos ataques que nem o mais delirante dos cineastas ousaria imaginar. Há comparações sendo feitas com outros eventos como Guernica. Há a pintura feita por Pablo Picasso em 1937, toda em preto e branco, em repúdio ao bombardeio a uma cidade espanhola por aviões alemães, apoiado pelo ditador Francisco Franco.

A comparação feita nos vários noticiários e reportagens especiais é a de que, em 1937, não havia muita veiculação da informação nos jornais etc. A pintura de Picasso veio após o bombardeio como uma forma de protesto e de memória, representado imageticamente. No caso dos ataques de 11 de setembro as imagens precederam o ocorrido e são muito mais fortes do que qualquer tentativa de representação artística do ocorrido.

Uma curiosidade sobre a pintura Guernica é a história de que em 1940, com Paris ocupada pelos nazistas, um oficial alemão, diante de uma fotografia reproduzindo o painel, perguntou a Picasso se havia sido ele quem tinha feito aquilo. O pintor, então, teria respondido: “Não, foram vocês!”.

O apoio de Hitler à Franco ocorrera 8 meses antes, com a promessa de fornecer armas e aviões. Hitler não hesitou, pois havia vários levantes contra Franco na Espanha, uma vitória comunista na Espanha provocaria uma “bolchevização”, por estímulo, da França, e o regime de Hitler ficaria cercado pela URSS de Stálin. Madrid, por exemplo, estava nas mãos dos republicanos esquerdistas e era alvo de bombardeios irregulares.

A cidade de Guernica foi escolhida por vários motivos. Uma cidade pequena, sem proteção anti-aérea, um alvo fácil. Além disso, abrigava um carvalho (Guernikako arbola) embaixo do qual os monarcas e seus legados, desde os tempos medievais, juravam respeitar as leis e os costumes bascos, bem como as decisões da batzarraks, o conselho basco. A destruição de Guernica serviria como uma LIÇÃO a todos que imaginavam uma Espanha federalista ou descentralizada.

A dizimação provocada pelo bombardeamento de mais de 2 horas matou 40% da população da pequena cidade. Ao contrário das notícias do ocorrido em 11 de setembro, as de Guernica demoraram para chegar aos jornais. Mas, semelhantemente, provocaram um tipo de terror inédito nos quatro cantos do mundo em que quase todos os habitantes do planeta se sentiram representados de uma forma ou de outra. Inaugurou-se então um outro tipo de guerra: A GUERRA TOTAL, na qual seria, por vezes, mais seguro estar dentro de uma trincheira em algum fronte, do que em qualquer outro lugar.

Os ataques de 11 de setembro e de Guernica trouxeram à tona o terror, que não só feriria os soldados mas também os nacionais sem qualquer restrição. Ambos os bombardeios tiveram a intenção de chocar, com uma demonstração de força e imprevisibilidade sem precedentes.

Total de mortos em Guernica: 1.654 (40% da população da cidade, em 1937)

Total de mortos em 11 de setembro: 2.996

Total de mortos em Hiroshima e Nagasaki: 220.000

Os bombardeamentos feito pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki ocorridos nos dias 6 e 9 de agosto de 1945 contra o Império japonês tiveram um efeito imediato: a rendição incondicional. Semelhantemente aos outros dois eventos, teve o papel de dar uma ‘lição’ ao mundo e uma demonstração de poder que deixaram o mundo atônito. Foram por volta de 220.000 mil mortos em poucos segundos, isso sem contar os efeitos da radiação que se estenderam por décadas. A supremacia militar e a ousadia americanas atingiram então um patamar único e inquestionável até que em 1955, quando se tornou tecnicamente possível à União Soviética lançar mísseis atômicos no território norte-americano, teve início uma coexistência pacífica, com enorme potencial de destruição acumulados que, segundo o professor Nicolau Sevcenko, em seu livro “A corrida para o século XXI” objetivava “manter uma força de represália, estratégia ironicamente batizada como MAD, MUTUAL ASSURED DESTRUCTION (Destruição Recíproca Garantida).”.

Interessante notar que era uma espécie de TERROR VELADO entre EUA e URSS, segundo Sevcenko:

“A polaridade que no entanto se estabeleceu entre os regimes comunistas e os capitalistas, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, ensejaria uma situação de CONFRONTO LATENTE e um duelo de propaganda entre os dois blocos em que se dividiu o mundo: a Guerra Fria.” (A corrida para o século XXI, p. 35)

Um dos marcos do suposto fim da guerra fria é a queda do muro de Berlim, em 1989, e da própria URSS em 1991. Há então o ápice do neoliberalismo. Citando o espetacular Sevcenko:

“Diante da obsolescência e do esfarelamento do mundo soviético, acentuado pelo APOIO MACIÇO DADO PELAS POTÊNCIAS CAPITALISTAS AOS REBELDES AFEGÃOS, diante da hegemonia incontestável da língua e da cultura anglo-americana, das redes de informação e comunicação unificando o planeta e da cristalização de um estilo de vida centrado na publicidade, nos apelos hedonistas e na euforia do consumo, ninguém poderia negar a preponderância do modelo saxônico. A queda do muro de Berlim só confirmou o que todos já pressentiam àquela altura. Foi quando se declarou o ‘fim da história’ e surgiu a idéia de batizar o século XX como o ‘século americano’.”

O apoio americano aos rebeldes afegãos, à resistência Mujahideen, do próprio Osama bin Laden, que contribui com armas, dinheiro e treinamento, ironicamente voltou-se contra eles mesmos nos ataques de 11 de setembro. Há muitas obras que retratam esse episódio. Um filme que é bastante ilustrativo disso é o “Jogos de Poder” (Charlie Wilson’s War), que retrata como o apoio americano aos rebeldes afegãos aumentou incrivelmente graças ao então senador Charlie Wilson e seu empenho para dinamizar a presença americana no Afeganistão na década de 70, contra o governo Afegão apoiado pela URSS.

Dito isso, vemos uma constante interferência americana nas várias relações sócio-econômicas do planeta, desde seu papel como fornecedor de produtos para a Europa destruída na primeira guerra, a invasão do Iraque por conta de petróleo, ou mesmo a caça à bin Laden. Assim, não é de se espantar que os dez anos pós ataques sejam tão comentados e temidos. Porém, com todas as intervenções que os EUA fazem no mundo, retaliações são previsíveis. Intolerância gera intolerância. Nada justifica a morte de civis inocentes, seja “guerra santa, quente, morna ou fria”.

About ricardonagy

Bacharel Direito PUC-SP. Pós-graduando em Direito Civil pela EPM-TJSP. Bacharel e Licenciado Letras inglês/português USP. Pós-graduado em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação PUC-SP.
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6 Responses to 11 de setembro, Guernica, Hiroshima e Nagasaki. Guerra Fria. Nicolau Sevcenko.

  1. Carla says:

    Edição 663 da revista Carta Capital, Especial 11 de Setembro: ” Bin Laden venceu.
    A xenofobia, a prepotência, a insegurança mundial e a decadência dos EUA não eram os objetivos? ”

    Será que isso tudo realmente é conseqüência do atentado às Torres Gêmeas do WTC, ocorrido há dez anos?

  2. Excelente artigo. Parabéns.

  3. lukcasfera says:

    É realmente está de parabéns pelo artigo, nos seres humanos erramos, mas ao ponto de matar diversas pessoas por uma única causa ou diversas causas pensando em si mesmo, é um ato horrível e o quadro guernica representa isso de forma clara com tons sombrios e escuros

  4. Mileyde says:

    Esse foi um bombardeio a Hiroshima e Nagasaki foi imprudente, inconsequente e principalmente Deprimente, afinal como seres humanos, mata uns aos outros assim ? Somos irmãos de diferentes nações, mas mesmo assim IRMÃOS .. Pertencemos a mesma raça, sem superiores ou inferiores, somos iguais. Foi um absurdo sem tamanho, um país (EUA) Mandar explodirem bombas em cidades que, as pessoas de lá não tinham culpa de nada, nem ao menos tiveram chance de se saber o porque de tudo aquilo, em segundos um clarão aconteceu, e quando escureceu, não havia mais nada .. NADA ! Sobrou apenas a indignação dos sobrevivente, dos parentes e conhecidos das vítimas . Mas na minha opinião o pior foi o EUA ter recebido PARABÉNS por aquilo, como se houvesse feito algo honrável, mas pelo contrário fez uma coisa suja, que me dá nojo, nojo de saber como algumas pessoas podem ser assim .. E lamento muito por TODAS as vidas inocentes que foram perdidas naquele dia, e outras que estarão marcadas por isso, pra SEEMPRE😥

  5. Dailto says:

    há informação errada no texto/foto. A imagem da menina correndo nua aconteceu no Vietnan depois de um bombardeio de Napalm, obra do nosso querido EUA

  6. ricardonagy says:

    Reblogged this on Ricardo Nagy's Blog and commented:

    11 de setembro…Hiroshima e Nagasaki… Guernica

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