Ensaios sobre o amor e a solidão. Livro do médico psiquiatra Flávio Gikovate.

Esse post se faz urgente. É com certeza de grande ajuda para muitos que sofrem à toa nesse mundo tão confuso, especialmente no que diz respeito aos relacionamento e à nova forma que eles se formam e, principalmente, se acabam.

O livro do doutor Gikovate é de espetacular ajuda e esclarecimento. Flávio Gikovate é médico psiquiatra formado pela USP em 1966. Trabalha com psicoterapia breve, tendo atendido mais de sete mil pacientes. É conferencista e autor consagrado, com várias obras publicadas, que somam mais de meio milhão de livros vendidos. Possui o site http://www.flaviogikovate.com.br no qual há várias de suas ideias e publicações, que vão desde tabagismo a obesidade. Entrei em contato com o livro graças a um grande amigo, Valério Morgado, agradeço muito, o livro foi de grande ajuda. Vejo que muito de meus alunos e familiares meus se beneficiarão muito com alguns dos trechos do livro que selecionei abaixo. Enjoy!

“O amor romântico é, talvez, o modo mais ciumento e possessivo de amar, apesar de ser uma adorável experiência e um ótimo remédio – paliativo – para nossa condição de desamparados.” p.11

O doutor entende que precisamos buscar a estabilidade na individuação, mantendo-se a individualidade, não anulando-a. Uma das partes interessantíssimas transcrevo agora:

“Confesso que não vejo solução para a FUSÃO romântica. Não posso deixar de considerar inevitável que, sendo o outro peça necessária para minha estabilidade emocional, desenvolverei mecanismos de dominação que farei agirem sobre ele. Não posso deixar de acreditar que, sendo outro peça fundamental para minha estabilidade emocional, eu tenha entrado por um atalho no qual minha dependência em relação a ele crescerá, ao mesmo tempo que minha auto-estima decrescerá. Sim, porque estarei sempre mais preocupado em saber como vai o outro do que com aquilo que está se passando dentro da minha alma. Não é bom para mim nem para o outro que ele seja minha salvação. Não há salvação possível por meio do outro, que é um pobre-diabo perdido e desamparado igual a mim.” Sensacional, doutor!

E essa é para os workaholics:

“Um importante vício ligado à vaidade corresponde a um dos componentes que nos prendem ao trabalho. Não deixa de ser interessante percebermos que aqueles que nunca trabalharam não sentem a falta que observamos nos que já se dedicam a esse tipo de atividade, mormente os que desempenham uma tarefa destacada. Seria simplório considerarmos esse o único fator que nos ata ao trabalho, ao qual nos dedicamos também porque necessitamos de retorno material e gostamos de nos manter entretidos intelectualmente em temas outros que não nós mesmos; por essa via, sentimo-nos úteis, além de contar com boa fonte de relacionamentos pessoais e de conhecimento de pessoas com as quais podemos ter afinidades maiores. Assim, o trabalho acaba por se transformar na atividade mais consistente e estável da vida de muitos de nós justamente por preencher várias de nossas necessidades e anseios íntimos. Por conter tantos elementos gratificantes e importantes a nossa subjetividade, o trabalho talvez seja o único evento existencial comparável ao amor, a única atividade que tenha peso e importância igual ou superior ao amor em nossa vida.

Tendemos a nos apegar de modo mais intenso às práticas ou situações que mais firmemente atenuem nossas dores e que nos deem a maior quantidade possível de prazeres. O amor, sentimento que desenvolvemos em relação a dada pessoa, tende a viciar porque esta passa a ser nossa principal fonte de aconchego. Além disso, muitos dos comportamentos do amado relacionados com ações que nos prestigiam também nos fazem sentir importantes, especiais, únicos e, portanto, significantes. Adoramos nos sentir assim, de forma que nos apegamos ainda mais à pessoa que desperta em nós tantas sensações agradáveis. Na verdade, viciamo-nos na pessoa amada e não no sentimento que temos por ela. Quando me reporto ao vício do amor, estou me referindo à dependência psicológica máxima que sentimos em relação a determinada pessoa. Se podemos nos sentir mal pela ausência de um cilindro brando cheio de pedaços de tabaco, o que dizer do vazio que sobra em nós quando nos vemos privados de um ser humano que nos aconchega e que ao mesmo tempo nos faz sentir importantes?” Espetacular!

“(…) A esse modo de amar, que vai muito além do amor romântico, chamo de ‘mais que amor’ ou ‘+amor’. Corresponde à intimidade entre inteiros e não à tentativa de fusão de duas metades. Implica respeito pelo modo de ser de cada um e pela individualidade dos envolvidos. Equivale ao sentimento que aproxima pessoas que conseguiram ter sucesso na dificílima tarefa de superar os acontecimentos infantis e a pressão para a perpetuação de relações de dependência, ainda majoritárias na sociedade.

O +amor só pode se estabelecer depois de um importante movimento interior que tenha como meta a absoluta negação de todo tipo de dependência como parte de nossa vida íntima. É muito difícil não dependermos de nada e de ninguém; contudo, acho que esse deve ser um de nossos objetivos.”

Acho que uma das grandes frases do doutor é que temos que entender que somos unidade e não fração. Se teremos um companheiro(a), será um complemento, mas não parte essencial para o seu bem-estar, porque aí seria dependência psicológica. Enfim, livro muito bom. Recomendo. Cheers!

About ricardonagy

Bacharel Direito PUC-SP. Pós-graduando em Direito Civil pela EPM-TJSP. Bacharel e Licenciado Letras inglês/português USP. Pós-graduado em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação PUC-SP.
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2 Responses to Ensaios sobre o amor e a solidão. Livro do médico psiquiatra Flávio Gikovate.

  1. Erasmo Alves says:

    Nagy, my dear. Vc foi muito feliz neste post…

  2. Pingback: “Me deixa em paz”. Alaide Costa. Reflexões sobre Relacionamentos. ‘Cicatristeza’. Flávio Gikovate. Frases de Arnaldo Jabor. | Ricardo Nagy's Blog

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