‘Cem Anos de Solidão’ e ‘O Amor nos Tempos do Cólera’. Gabriel Garcia Marquez, seu realismo mágico, e duas ‘Femme Fatale’. Parte 1.

Em homenagem ao eterno Gabriel Garcia Márquez, um post que havia escrito sobre dois de meus livros favoritos, que marcaram muito minha história, de sua autoria. “Yo napot, paçak!”

‘Cem Anos de Solidão’ tem a peculiaridade de ser um dos livros mais lidos e traduzidos do mundo. Em 2007 a obra foi considerada a segunda mais importante de toda a literatura hispânica, ficando atrás, apenas, de ‘Don Quixote de La Mancha’. Semelhantemente ao fato irrelevante de Capitu ter traído ou não Bentinho, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o grande emaranhado de Aurelianos, José Arcadios e a árvore genealógica interminável fez muitas pessoas o lerem com blocos de anotações, mas não é o mais importante. A essência está em apreciar o realismo mágico com que Gabriel Garcia Marquez traz a história da cidade mítica de Macondo, retratando várias gerações que lutam contra uma realidade truculenta, excessiva, sempre à beira da destruição total.

A obsessão de José Arcadio Buendía, um verdadeiro empreendedor, que buscava incessantemente o novo e que, diante dos obstáculos não parava. Ficava fascinado com as invenções que os ciganos, especialmente Melquíades trazia. Gastava todas as economias da família com elas. Ao contrário de seu avô, o primeiro Aureliano Buendía que:

“Na sua juventude, ele e seus homens, com  mulheres e crianças e animais e toda espécie de utensílios domésticos, atravessaram a serra procurando uma saída para o mar e, ao fim de vinte e seis meses desistiram da empresa e fundaram Macondo, para não ter que empreender o caminho de volta. Era, pois, uma rota que não lhe interessava, porque só podia conduzi-lo ao passado.”

Uma das personagens mais intrigantes, na minha opinião, é, sem dúvida alguma, a de Remédios, a bela. Selecionei um trecho que mostra bem toda a sua atração e o porquê era obrigada a raspar a cabeça e se esconder de forasteiros:

 “Incosciente da aura inquietante em que se movimentava, do insuportável estado de íntima calamidade que provocava à sua passagem, Remedios, a bela, tratava os homens sem a menor malícia e acabava por transtorná-los com as suas inocentes complacências.”

Sua inocente e despretensiosa sedução levava os homens à verdadeira loucura:

“(…) Um dia, quando começava a se banhar, um forasteiro levantou uma telha do teto e ficou sem respiração diante do tremendo espetáculo de sua nudez. Ela viu os olhos aflitos através das telhas quebradas e não teve nenhuma reação de vergonha, mas sim de preocupação.
-Cuidado – exclamou. – Você vai cair.
-Só quero ver você – murmurou o forasteiro.
-Ah, bem, – ela disse. – Mas tenha cuidado que essas telhas estão podres.

O rosto do forasteiro tinha uma dolorosa expressão de espanto e parecia lutar surdamente contra os seus impulsos primários, para não dissipar a miragem. Remedios, a bela, pensou que ele sofria de medo de que as telhas quebrassem e se banhou mais depressa do que de costume, para que o homem não continuasse em perigo. Enquanto se jogava água, disse a ele que era um problema que o teto estivesse naquele estado, pois ela acreditava que a camada de folhas apodrecidas pela chuva era o que enchia o banheiro de escorpiões. O forasteiro confundiu aquela conversa com uma forma de dissimular a complacência, de modo que quando ela começou a se ensaboar cedeu à tentação de dar um passo adiante.
-Deixe-me ensaboá-la – murmurou
-Agradeço sua boa intenção – disse ela. – mas posso perfeitamente fazê-lo sozinha com as minhas duas mãos.
-Só as costas – suplicou o forasteiro.
-Seria um desperdício – ela disse. – Nunca se viu ninguém ensaboar as costas.

Depois, enquanto se enxugava, o forasteiro implorou com os olhos cheios de lágrimas que se casasse com ele. Ela lhe respondeu sinceramente que nunca se casaria com um homem tão bobo que perdia quase uma hora, e até ficava sem almoçar, só para ver uma mulher tomar banho. Por fim, quando vestiu a bata, o homem não pôde suportar a comprovação de que realmente não usava nada embaixo, como todo mundo suspeitava, e se sentiu marcado para sempre com o ferro ardente daquele segredo. Então arrancou mais duas telhas para se atirar no interior do banheiro.
-É muito alto! – ela o preveniu assustada. – Você vai se matar!

As telhas apodrecidas se despedaçaram num estrondo de desastre e o homem mal conseguiu lançar um grito de terror e fraturou o crânio e morreu sem agonia no chão de cimento. Os forasteiros que ouviram o barulho na sala de jantar e se apressaram em levar o cadáver perceberam na sua pele o sufocante cheiro de Remedios, a bela. Estava tão entranhado no corpo que as rachaduras do crânio não emanavam sangue e sim um óleo ambarino impregnado daquele perfume secreto, e então compreenderam que o cheiro de Remedios, a bela, continuava torturando os homens além da morte, até a poeira dos ossos.

O Amor nos tempos do cólera: “Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.” Alexandre Martins.

A bela síntese de Alexandre Martins expressa bem outra ‘Femme Fatale’ de Gabriel Garcia Marquez: Firmina Daza! Seu eterno apaixonado Florentino Ariza, numa demonstração de amor incondicional, esperou, pacientemente, apaixonadamente até que seu grande amor ficou viúva e enfim pôde voltar a sonhar:

“Florentino Ariza estremecia com a idéia de que seu trabalho de tantos anos se frustrasse à última hora por esta condição imprevista. Teria preferido renunciar, atirar tudo pela janela, morrer, a falhar a Fermina Daza. Por sorte, tio Leão XII não insistiu. Quando fez noventa e dois anos reconheceu o sobrinho como herdeiro único, e se retirou da empresa.”

Quando o médico Juvenal Urbino morre, regozijo e esperança do pobre Florentino Ariza:

“Florentino Ariza tinha prefigurado aquele momento nos mais íntimos detalhes desde os dias de juventude em que se consagrou por completo à causa desse amor temerário. Por ela ganhara nome e fortuna sem reparar demais nos métodos, por ela cuidara de sua saúde e sua aparência pessoal com um rigor que não parecia muito varonil a outros homens do seu tempo, e esperara aquele dia como ninguém teria esperado nada sem ninguém neste mundo: sem um instante de desalento. A comprovação de que a morte interviera por fim a seu favor infundiu-lhe a coragem de que necessitava para reiterar a Fermina Daza, em sua primeira noite de viúva, o juramento de sua fidelidade eterna e seu amor para sempre.”

Firmina Daza casara-se com Juvenal Urbino por influência de seu pai. Um trecho que demonstra bem a noção dessa anulação dela mesma em prol de uma relação se expõe aqui:

“Queria ser outra vez ela mesma, recuperar tudo que tivera de ceder em meio século de uma servidão que a fizera feliz, sem dúvida, mas que uma vez morto o marido não deixava a ela nem traços de sua identidade.”

E agora a visão da própria Firmana Daza sobre Florentino Ariza:

“Não lhe era fácil recuperar a imagem de Florentino Ariza, e muito menos conceber que aquele rapaz taciturno, tão desvalido debaixo de chuva, fosse aquela mesma ruína carunhosa que se plantara diante dela sem nenhuma consideração pelo seu estado, sem o menor respeito pela sua dor, e que lhe abrasara a alma como uma injúria de chamas vivas que até agora lhe atalhava a respiração.”

Sem dúvida uma grande Femme Fatale. ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ foi escrito após o ano sabático que Gabriel Garcia Marquez tirou logo em seguida a seu prêmio Nobel. Foi publicado em 1985 e também tem características do Realismo Fantástico de Marquez. Porém, na minha humilde opinião, não se compara a ‘Cem Anos de Solidão’. Este, realmente, é inesquecível… e obras-primas como essa são eternas. Cheers!

About ricardonagy

Bacharel Direito PUC-SP. Pós-graduando em Direito Civil pela EPM-TJSP. Bacharel e Licenciado Letras inglês/português USP. Pós-graduado em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação PUC-SP.
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3 Responses to ‘Cem Anos de Solidão’ e ‘O Amor nos Tempos do Cólera’. Gabriel Garcia Marquez, seu realismo mágico, e duas ‘Femme Fatale’. Parte 1.

  1. Rodrigo says:

    Excelente comentário! Gosto dos dois livros, porém tive mais prazer ao ler “O Amor nos Tempos do Cólera”. A cena do juramento de amor na primeira noite de viúva da moça é muito divertida, do meu ponto de vista, como o personagem de modo geral. Abrasss

  2. Pingback: Tim Burton e Johnny Depp: Sombras da Noite. 2 femme fatale. | Ricardo Nagy's Blog

  3. ricardonagy says:

    Reblogged this on Ricardo Nagy's Blog and commented:

    Em homenagem ao Eterno Gabriel Garcia Márquez

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