O lado biológico da globalização. Charles Mann. Colombo recosturou as bordas de Pangeia. Amazônia e intervenção humana.

O jardim que você cultiva na sua casa muito provavelmente possui elementos, como um tomate, por exemplo, que está a seu dispor agora mas que, originariamente estava a mais de 4.000 km de distância. Em seu livro ‘1491: New Revelations of the Americas Before Columbus, published by Alfred A. Knopf.‘, o jornalista científico americano Charles Mann traz uma compilação de fatos históricos, pesquisas científicas e curiosidades da globalização biológica que ocorreu a partir de Colombo, em 1492, levando espécies não nativas às mais diversas partes do planeta, além de, é claro, doenças que dizimaram populações inteiras.

O historiador Alfred W. Crosby, citado pelo autor, acredita que Colombo recosturou as bordas de Pangeia (há 250 milhões de anos atrás a Terra continha uma massa única chamada Pangeia), pois depois da chegada de Colombo às Américas em 1492, os ecossistemas do munda colidiram e se misturaram. Essa é, segundo Mann, a razão para haver tomates na Itália, laranja na Flórida, chocolates na Suíça e pimentão na Tailândia.

No início do comércio do Atlântico, por exemplo, espanhóis e portugueses traziam ouro e prata da Bolívia, do Brasil, da Colômbia e do México. Mas quando retornavam traziam algo de igual importância econômica: o tabaco. Pois este intoxicante e viciante produto foi o responsável pela primeira corrida em busca de uma commodity. Em 1607 Londres já possuía mais que 7.000 ‘casas’ de tabaco. Marinheiros vinham da Inglaterra usando como contra peso barris contendo terra, cascalho e pedra. Trocavam-os por tabaco da Virginia, esvaziando os barris com terra e enchendo de tabaco. O detalhe é que nessa terra provavelmente havia a minhoca da noite e a minhoca vermelha que haviam desaparecido dessas regiões na era glacial.

Quando essas minhocas chegam, elas consomem as folhas que ficavam na superfície, e levavam os nutrientes para dentro do solo, prejudicando aquelas plantas cujas raízes eram superficiais, dando lugar a outras com raízes mais profundas, modificando, assim, a paisagem.

A Europa livrou-se da fome por conta dessa globalização. Os europeus conheceram a batata, que vinha dos Andes, o milho da América Central. Isso sem falar que o Látex brasileiro foi parar no sudeste da Ásia e a mandioca na África.

Além dessas curiosidades, o autor também comenta com grande entusiasmo as novas descobertas da Amazônia, feitas por pesquisadores brasileiros no Acre e na Amazônia ocidental, principalmente. Pesquisas genéticas estão sendo realizadas para confirmar a hipótese de que as áreas que hoje são as mais preservadas da Amazônia são aquelas que justamente sofreram maior intervenção humana ao longo dos séculos. Satélites comprovam grandes plantações feitas há séculos baseados em um padrão de árvores que aumenta seu número conforme vai-se indo para o norte e ao longo do rio Amazonas. A hipótese é a de que essa grande biodiversidade foi feita justamente pela intervenção humana. As doenças trazidas pelos europeus à América justifica a falta de presença humana nesses locais. Portanto, ao contrário do que dizem boa parte dos livros de história, os índios pré-colombianos não habitavam de forma esparsa as Américas e sim de forma abundante. Enjoy!

Livro:

 MANN, Charles. 1491: New Revelations of the Americas Before Columbus, published by Alfred A. Knopf.

About ricardonagy

Bacharel Direito PUC-SP. Pós-graduando em Direito Civil pela EPM-TJSP. Bacharel e Licenciado Letras inglês/português USP. Pós-graduado em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação PUC-SP.
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3 Responses to O lado biológico da globalização. Charles Mann. Colombo recosturou as bordas de Pangeia. Amazônia e intervenção humana.

  1. A Amazônia como um jardim dos povos pré-colombianos e a globalização biológica. Excelente entrevista!

  2. Sonia Moreira Lobato says:

    Vi parte da entrevista na Globo News, fiquei feliz por minhas aleatórias reflexões sobre a evolução artística do homem_ ser individual e social_ , enfim, encontrar fundamentos para meus devaneios de uma relação de influencias culturais muito anterior, a “famosa”globalização atual. Creio no atravessamento milenar entre os contextos geográficos e paisagísticos, por conta de observação, aqui mesmo, entre as diferentes áreas do Brasil em que vivi, e de muitos romancistas que reconstituíram “rotas” importantes já mapeadas por ousados historiadores.

  3. Luiz Mazieri Netto says:

    Excelente reportagem, tema interessante, entrevistado cativante, voces precisam voltar ao tema e fazer outras entrevistas com esse jornalista/escritor. Parabéns.
    Luiz

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