Brasil: língua e esquizofrenia. Pronomes, ‘Você’ e a conjugação. Acordo ortográfico.

acordo ortográficoQuantas vezes você já usou ‘tu‘ e ‘vós‘ corretamente numa conversa, ainda que formal? Nem mesmo quem se gaba de usar um português supostamente mais correto, conjuga o verbo como mandam os puristas, apesar de muitos acharem que o fato de usar ‘tu’ numa frase já basta.

Segundo o linguista Marcos Bagno, no excelente artigo ‘Pronomes Brasileiros, por favor’  o fato de o ensino de pronomes da língua portuguesa ser feito como se ‘tu’ e ‘vós’ fossem os únicos pronomes pessoais de 2.a pessoa, reflete um arcaísmo: segundo o linguista “‘vós‘ — um pronome que não é usado em nenhum lugar do mundo onde se fala português há, no mínimo, trezentos anosrevela esse apego a um ideal linguístico arcaico.”

Explico melhor: ‘você’ é considerado pronome de tratamento, isto é, uma forma respeitosa de se referir a alguém. Vem de ‘Vossa Mercê’, que foi sofrendo ‘aglutinações e erosões fonéticas’ (vossemecê, vosmecê… você) até chegar ao ‘você’ e ‘cê’ para os íntimos.

Pois bem, para o linguista, o que ocorreu foi uma gramaticalização -uma mudança de uma palavra ou, no caso, uma expressão, de uma categoria para outra- no caso, de um pronome de tratamento (Vossa Mercê) para pronome pessoal, embora não oficialmente reconhecido.

A esquizofrenia vem daí. Diferentemente do inglês – em que a 2.a pessoa ‘you’ é usada de fato na 2.a pessoa (diálogo) – no português não se usa ‘tu’ para diálogo ou, quando se usa, não se conjuga o verbo corretamente. Assim, usamos ‘você’ conjugado na 3.a pessoa do singular, isto é, como se fosse falando de algo ou de alguém, mas para diálogo.

Explico: 1.a eu amo/ 2.a tu amas/3.a ele ama… Nós não falamos ‘você AMAS?’, mas sim ‘você ama’. Curiosamente, nós conjugamos ‘você’ na 3.a pessoa (você vai, você ama), mas quando escolhemos pronomes oblíquos (me, te, se, o, a etc), usamos a 2.a, ‘vou te contar uma coisa’ ou ‘eu te amo’; já pensou alguém te falar: ‘Amo-te’? Fim de relacionamento na certa! O que predomina então parece ser, como dizia Mário de Andrade, uma espécie de ‘brasileiro’, não de português.

Estranhamente, temos uma língua esquizofrênica e anacrônica, do ponto de vista pronominal, enquanto que na acentuação há mudanças praticamente a cada dez anos, fato que traz inseguranças e confusões, haja vista que a cada geração de brasileiros, escreve-se e acentua-se de forma diferente.

O que dizer então do acordo ortográfico de 1990 que, por decreto, tem de ser implementado até o final de 2015? Bem, segundo o professor emérito e imortal Evanildo Bechara “adiamento da obrigatoriedade da reforma ortográfica é “lamentável” e protestos, “inconsistentes””; já segundo Antonio Houaiss e o doutor em linguística Aldo Bizzocchi em seu artigo ‘A ABL e a defesa do indefensável’ (03/2013) parece refletir melhor o descontentamento de muitos brasileiros:

“O fato é que o Acordo foi alinhavado a partir de mútuas concessões, em meio a muitas intransigências e imposições, de que resultou um “frankenstein”, nas palavras do próprio Antônio Houaiss, segundo me confidenciou, cansado e desiludido, numa de nossas raras conversas.

 Milhões foram gastos precipitadamente na reedição de livros e dicionários, sem que o sistema tivesse sido suficientemente discutido e testado. O que se tenta agora é impedir o vexame – e o prejuízo financeiro – de reconhecer os equívocos, voltar atrás e começar tudo de novo. Aparentemente, o ilustre imortal, não podendo defender o indefensável, limitou-se a debater questões periféricas, evitando pôr o dedo nas feridas expostas deste malfadado Acordo.”

Quando se tem tantas mudanças em um tão curto período de tempo, e membros na academia brasileira de letras como José Sarney e Marco Marciel, creio que à Aldo cabe a razão.

 

About ricardonagy

Bacharel Direito PUC-SP. Pós-graduando em Direito Civil pela EPM-TJSP. Bacharel e Licenciado Letras inglês/português USP. Pós-graduado em Tecnologias Interativas Aplicadas à Educação PUC-SP.
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